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Saúde dos Rapinantes na falcoaria

Não é objetivo deste texto ensinar a diagnosticar ou muito menos conhecer o tratamento dos diversos problemas que podem acometer as nossas aves , pois esta é uma atribuição do Médico Veterinário, mas precisamos estar atentos e sermos capazes de identificar sinais de possíveis doenças e perceber rapidamente o aparecimento das lesões mais comuns em aves treinadas em falcoaria e principalmente saber como prevenir estes problemas.

Pequena lesão de tarso. A parte rugosa para dentro e bracelete largo causou uma lesão por compressão na região da borda superior do bracelete.

Pequena lesão de tarso. A parte rugosa para dentro e bracelete largo causou uma lesão por compressão na região da borda superior do bracelete.

Temos, dentro das técnicas empregadas na falcoaria, procedimentos que apesar de indispensáveis, podem ser geradores de lesões muitas vezes graves, se não forem tomados cuidados básicos na sua execução.

Um dos problemas mais comuns que acometem as aves nas fases iniciais do treinamento é a lesão nos tarsos causada pelos braceletes. São lesões de gravidade variável e que podem ser minimizadas ou mesmo completamente evitadas pela observação de alguns cuidados bastante simples.

Primeiramente braceletes do tipo “aylmeri” são os mais indicados pois são mais seguros, permitem um ajuste adequado, praticamente eliminam a possibilidade de torção do bracelete e proporcionam boa distribuição da pressão sobre o tarso.

Devemos ser extremamente criteriosos na escolha do couro a ser utilizado nos braceletes.O couro impreterivelmente natural deve ser o mais fino e maleável possível, mantendo no entanto a resistência adequada à espécie em que será utilizado. A estética deve ser deixada de lado e a face lisa deve ser a escolhida para estar em contato com a pele da ave. Mesmo lixada, a textura da face interna (rugosa) é muito mais abrasiva que a face externa (lisa). Braceletes mais largos devem ser preferidos pois distribuem a pressão sobre uma área maior do tarso. Em geral braceletes com a largura de um terço do comprimento do tarso são adequados.

Outro aspecto a ser observado é o ajuste do bracelete. Braceletes muito apertados impedem a circulação provocando desde inchaços a necrose da extremidade. Braceletes muito frouxos tendem a concentrar a pressão na borda superior do couro, além de correr facilmente pelo membro, provocando escoriações. O parâmetro neste caso é que estejam justos mas permitam o giro livre ao redor do membro

Bracelete ajustado corretamente e com área lisa para dentro

Bracelete ajustado corretamente e com área lisa para dentro

Em relação ao uso de graxas para manter o couro macio, acreditamos que caso a escolha do couro e a aplicação dos braceletes seja adequada, nos primeiros meses o seu uso torna-se dispensável. Nas primeiras semanas de treinamento quando o animal arisco mais provoca pressão sobre os braceletes, o couro novo cumpre sua função. Com o tempo a medida que o couro perde a maciez, devemos utilizar apenas graxas específicas para couro.

A utilização de graxas inadequadas ou pior, pomadas para usos diversos, medicamentosas ou a base de água, provocam o endurecimento do couro muitas vezes em poucas horas, com conseqüências desastrosas.

tarço lesionado

lesão grave causado por bracelete, em cicatrização

Outros procedimentos preventivos importantes são a utilização de extensores elásticos para amortecimento da pressão sobre os tarsos quando a ave se debate, poleiros de construção adequada e minimização de estímulos externos nas fases iniciais de treinamento. Mesmo com estes cuidados ainda assim as lesões podem ocorrer. Cabe ao falcoeiro estar atento aos primeiros sinais de vermelhidão ou “eriçamento” das escamas, procurando orientação imediata.

Caso já seja visível uma ferida na pele, mesmo que pequena, o mais adequado é que o bracelete seja imediatamente retirado e o veterinário consultado. Um bracelete novo pode ser facilmente recolocado, mas uma lesão grave de tarso pode levar semanas para ser resolvida.

Outra  lesão bastante comum é a lesão conhecida como pododermatite ou  “bumble-foot”. Mais freqüente em espécies mais pesadas, são na grande maioria das vezes causadas por poleiros inadequados. Forma, material, diâmetro, e maleabilidade do material utilizado, provocam a distribuição desigual do peso sob os pés, criando calosidades e inflamação. Outras vezes, ferimentos causados pela perfuração da sola por unhas excessivamente grandes, favorecem a instalação de microorganismo que provocam a lesão. Unhas grandes podem também alterar a distribuição do peso pelos dedos e sola, sobrecarregando algumas áreas.  As lesões podem ser classificadas de acordo com a gravidade e fatores determinantes mas que não são o objetivo deste texto.

O importante é a realização de uma inspeção diária da sola, buscando os primeiros sinais da lesão. Buscamos a presença de pontos avermelhados, áreas sem escamas, calosidades e inchaços. A presença de qualquer destes sinais é motivo para uma consulta ao veterinário. Logicamente os cuidados com a higiene das superfícies de contato como poleiros, luvas e assoalhos são de grande importância.
Inúmeros outros acidentes podem ocorrer com uma ave atrelada em qualquer fase do treinamento, tornando necessária uma inspeção diária de toda a ave e atenção na qualidade e perfeito funcionamento do material utilizado.

Durante o treinamento a ave é submetida a um stress intenso, físico e psicológico. Esta situação pode predispor ao aparecimento de doenças diversas pela redução das defesas do organismo. Doenças em estado latente podem se manifestar e outras podem ser adquiridas pela maior susceptibilidade do organismo no momento. O falcoeiro deve reconhecer comportamentos e situações anormais que indiquem o aparecimento destas doenças, para que o Médico Veterinário possa realizar um diagnóstico precoce, melhorando as chances de cura da ave e reduzindo o tempo de tratamento

Os principais sinais de alerta são:

  • Rápida redução do peso sem motivo aparente;
  • Amansamento súbito, ou seja, um animal arredio que repentinamente torna-se manso; o Redução do apetite;
  • Dificuldade para engolir o alimento ou sacudir a cabeça com o alimento no bico, jogando fora;
  • Dificuldade em manter-se sobre apenas um pé, ou seja, manter-se sempre sobre os dois pés ou apoiar o tarso quando tenta descansar sobre um só pé;
  •  Dificuldade em manter um ou os dois olhos abertos por muito tempo; o Olhos sem brilho e semicerrados;
  • Dificuldade de respirar ou respiração acelerada quando em repouso. Normalmente nesta situação a cauda balança de forma evidente para cima e para baixo no ritmo da respiração;
  • Secreção ocular e/ou nasal; o Penas eriçadas;
  • Penas sem brilho ou cobertas por um pó ou caspa; o Presença de parasitas nas penas;
  • Ausência de eliminação da pelota.
  • Aspecto das fezes. As fezes normais de rapinantes apresentam duas fases, uma líquida esbranquiçada e uma sólida escura normalmente representada por pequenos grãos. Devemos atentar para a presença de sangue nas fezes, coloração anormal, parte escura amolecida ou proporção anormal entre parte sólida e líquida
Secreção nasal unilateral

Secreção nasal unilateral

A presença de um ou mais destes sintomas denotam a necessidade da busca de assistência veterinária. Cuidados básicos de higiene com as instalações, equipamentos e alimentos são determinantes na prevenção da maioria das doenças. Instalações seguras, bem ventiladas, adequadamente higienizadas, equipamentos limpos e funcionais, alimentos bem preparados e adequadamente armazenados dificultam a instalação e proliferação de agentes causadores de doenças além da melhoria do estado físico geral da ave e sua capacidade de lidar com estes mesmos agentes. 

Outro fator importante na manutenção da saúde e no incremento da condição física da ave que dever ser enfatizado é a questão do controle do peso no treinamento. Especialmente em aves destinadas à reabilitação, devemos ser criteriosos na determinação de uma maior redução do peso nas fases do treinamento como solução para uma resposta inconsistente da ave. É preciso buscar a leitura correta de elementos de motivação no treinamento tornando a utilização da redução do peso ao mínimo necessário, favorecendo assim o incremento da massa muscular e do condicionamento atlético da ave. A manutenção da ave em um peso muito baixo por muito tempo sob o pretexto de respostas rápidas aos comandos e aplicação nas capturas, ao contrário do que se objetiva, reduz gradativamente a condição geral de saúde da ave pelo desgaste muscular e nutrição inadequada.

Desta forma a ave apesar de aparentemente responsiva e aplicada nas capturas, está no limite de sua condição e uma vez dependente seus próprios meios na natureza e sujeita a muito mais variáveis ambientais que no período de treinamento, não é capaz de lidar com uma situação adversa um pouco mais prolongada.

Finalmente, o bom-senso na utilização das técnicas de condicionamento físico, evitando os exageros nos saltos verticais, golpes fortes em iscas inadequadas bem como capturas em locais com muitos elementos potencialmente perigosos, evitam a produção de algumas lesões que, passando muitas vezes despercebidas durante o período de treinamento, reduzirão em longo prazo a sobrevida da ave.

Fonte:

Este texto foi adaptado do artigo “Saúde e Reabilitação de Rapinante” de Eduardo Campolina.

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Israel Pimentel

Israel Pimentel (1986),Biólogo, Iniciou a falcoaria em Belo Horizonte, trabalha profissionalmente desde 2009 em controle de fauna em aeroportos, galpões, resort's e etc. Fundou o site falcoaria online para disseminar a falcoaria por todo solo nacional. Ex-presidente da ABFPAR e diretor da AMF.

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